Sobre estar no meio do descomforto

Existem dias em que parece haver muito acontecendo dentro de nós e, ao mesmo tempo, nada consegue acontecer do lado de fora.
Os pensamentos se atropelam. As possibilidades se multiplicam. O que ainda não aconteceu ocupa espaço, o que já passou retorna, e o presente, que deveria ser o lugar onde a vida acontece, parece ficar pequeno diante de tudo o que a mente tenta alcançar.
Há uma espécie de urgência em organizar, compreender, resolver. Como se encontrar uma resposta pudesse finalmente fazer o barulho diminuir.
Mas, às vezes, nem sequer conseguimos começar.
E existe um desconforto particular em perceber essa distância entre o que pensamos, o que sentimos e o que conseguimos fazer. Uma inquietação que não vem apenas da ansiedade, mas também da cobrança por não conseguir lidar com ela da maneira que gostaríamos.
Acho que estamos tão acostumados a procurar formas de interromper o que sentimos que nos esquecemos de como é estar com aquilo que não sabemos resolver.
Não digo isso como quem encontrou uma maneira tranquila de atravessar esses momentos. Há dias em que a incerteza incomoda, em que o corpo parece não acompanhar a velocidade dos pensamentos, em que permanecer no presente exige mais do que gostaríamos de admitir.
E talvez exista algo importante em reconhecer essa experiência sem precisar transformá-la imediatamente em aprendizado, produtividade ou mudança.
Nem todo desconforto precisa se tornar uma oportunidade. Nem toda experiência difícil precisa terminar com uma resposta bonita. Há coisas que simplesmente nos atravessam, nos desorganizam e nos colocam diante dos nossos próprios limites.
E estar nesse lugar não significa necessariamente estar fazendo algo errado.
Talvez possamos pensar a experiência humana também a partir dessa possibilidade: a de não ter clareza, de não saber exatamente o que fazer com o que sentimos, de existir por algum tempo no intervalo entre a necessidade de compreender e a impossibilidade de encontrar respostas.
Sem romantizar o sofrimento. Sem fazer da aceitação mais uma exigência.
Apenas reconhecendo que há momentos em que estar vivo também é isso: habitar o desconforto de não saber, sentir o peso daquilo que ainda não ganhou forma e permanecer em contato com uma experiência que não se deixa organizar tão facilmente.
Nem sempre há uma conclusão.
Na maioria das vezes, há apenas o que estamos vivendo: complexo, contraditório, inacabado.
E precisamos (preciso!) lembrar que isso também merece espaço.

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