Quando a depressão vai apagando a vida

Talvez a parte mais difícil da depressão não seja a tristeza. Talvez seja perceber que você está se afastando da própria vida e não saber exatamente quando isso começou.
Você deixa uma mensagem para responder depois. Desmarca um encontro porque não consegue imaginar como vai estar até lá. A música que antes acompanhava seus dias continua tocando, mas já não chega do mesmo jeito. São coisas pequenas, e é por isso que às vezes demora para perceber o quanto mudou.
Por fora, você pode continuar fazendo o necessário. Trabalha, conversa, responde “estou bem”. Por dentro, sente que participa cada vez menos de tudo isso. Como se estivesse presente apenas o suficiente para atravessar o dia.
E existe uma dor particular em sentir falta de si mesma. Lembrar de coisas que gostava, de planos que fazia, de como era estar perto das pessoas e não conseguir alcançar nada disso agora. Às vezes, nem é possível dizer o que você quer. Só sabe que não queria se sentir tão distante.
Quem olha de fora pode chamar isso de desânimo. Mas você sabe o esforço que existe em levantar, tomar banho, escolher o que comer ou sustentar uma conversa. Sabe também que gostaria que fosse simples voltar a sentir vontade.
É difícil falar de uma ausência que quase ninguém vê. Como dizer que sente falta da própria vida se, para os outros, você ainda está nela? Talvez por isso seja tão importante poder dizer, sem precisar explicar perfeitamente: “eu não estou conseguindo me sentir aqui”.

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